domingo, 11 de setembro de 2016

Feminismo e Mudanças Climáticas – por Conceição Amorim

https://aflecha.com/2016/01/17/feminismo-e-mudancas-climaticas-por-conceicao-amorim/


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Foto: redes sociais
A humanidade avança a passos largos para o caos ambiental. Assustadas e sofridas, as mulheres pobres e trabalhadoras do campo, da floresta e das cidades são as mais penalizadas pela crise climática, que está vinculada à crise econômica, e o aumento das injustiças sociais e ambientais. Um exemplo disso é o aumento da responsabilidade e sobrecarga de trabalho das mulheres para atender as necessidades básicas da família perante a falta d’água, a falta de alimentos e, conseqüentemente, a precarização das condições básicas de sobrevivência.
Enquanto as mulheres dos sertões do nordeste brasileiro, desde 2004, vêm sofrendo com a longa estiagem e, muitas vezes, tendo que decidir entre usar o parco dinheiro obtido – a duras penas com a venda de lenha ou mesmo com o recurso da bolsa família, – para comprar água ou comida, em São Paulo, a maior cidade da America Latina, as mulheres, no ano passado, foram obrigadas a acordar de madrugada para armazenar água, lavar roupa, louça e acrescentar no seu orçamento, já comprometido, a compra de água potável para beber.
As mulheres, em ilhas do Pacifico, percorrem diariamente, sozinhas, longas distâncias para recolher água ou tomar banho nos rios quando falta água em casa. Muitas vezes as mulheres são violentadas, no caminho, porque são elas que devem pegar água para suas famílias, como denuncia a Anistia Internacional, em relatório de 2011, sobre a falta de água na região. Também em outros países, como na Índia, a situação é similar.
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Foto: Vilarejo na Índia, Stefano Rivalli/Flicker
As mulheres nas áreas rurais de muitos países, têm sentido as conseqüência da contaminação das águas, do desaparecimento de varias espécies vegetais e animais, assim como dos processos migratórios contemporâneos, quando muitos deles estão relacionados com as mudanças climáticas.

Ao longo da história da humanidade, as mulheres têm estabelecido uma relação diferenciada com a natureza em comparação com os homens. Essa relação se estabelece na ancestralidade humana, a partir do labor diário. Enquanto os homens no processo de coleta de alimentos se embrenhavam nas matas, povoadas por animais perigosos, e desenvolviam as técnicas para matá-los, as mulheres desenvolviam as técnicas da domesticação das plantas e animais, reproduzindo a vida animal e vegetal.
Portanto, a tendência é que, para as mulheres, o equilíbrio do meio ambiente venha se apresentar como um fator essencial para a continuidade da vida das espécies, concebendo, assim, a natureza como fonte de vida que precisa ser defendida, recuperada, preservada dos ataques do desenvolvimento, do “progresso” capitalista.
O feminismo precisa aprofundar a conexão entre a exploração da natureza com a opressão das mulheres e definir estratégias que fortaleça e efetive as lutas das mulheres do campo, da floresta e da cidade numa perspectiva ecológica, intensificando sua luta pela mudança no modelo de produção articulada com a transformação no padrão de consumo.
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Foto: redes sociais
As profundas mudanças climáticas tendem a afetar de forma mais dura as populações mais pobres, de áreas menos desenvolvidas, com secas, enchentes, furacões, ondas de calor, entre outros problemas. E essas mudanças não podem ser enfrentadas, apenas, através de medidas domésticas e voluntárias.
A questão em pauta, hoje, exige mudanças radicais nos meios de produção, de consumo, e contra a continua e perversa exploração da natureza, exige enfrentar o capitalismo.
O feminismo, além de suas bandeiras históricas, precisa levantar com toda a força a bandeira da luta ambiental. A luta contra a opressão, as desigualdades, por direitos iguais, é, agora, a luta pela própria sobrevivência das mulheres, ameaçadas pelas mudanças climáticas que se agravam, bem como de toda humanidade.

Conceição Amorim é ativista feminista da Articulação das Mulheres Brasileiras(AMB)

A breve história de uma lutadora

    
Mulher do nordeste brasileiro. Riograndense do Norte.  Filha de Maria do Carmo, do lar e Guilherme, comerciante.  Tem o rosto marcado pelos 53 anos de uma vida movida pelo bom combate. Entre idas e vindas de bons amores, permanece solteira. Mulher de fibra. Mãe de Iza Amorim, um substantivo peculiar.
Aquela que anseia sempre por mudanças. Vai aonde for possível para alcançar seus objetivos. Nascida em Mossoró/RN, mas tem Imperatriz como cidade querida e um dos berços de sua trajetória desde 1977. Dona de um admirável percurso na luta feminista. Fascinada por contribuir em prol da mulher e dos menos favorecidos. Além disso, é degustadora de um bom café e da culinária imperatrizense. Admiradora do por do sol da Beira Rio. Por onde passa deixa sua marca de batalhar contra as injustiças sociais. Amante de uma cerveja gelada (convites?) para regar um papo leve e descontraído e amenizar o calor da cidade. Defensora daqueles que cruzam seu caminho. Vira a cara para a violação dos direitos alheios e para falsidade. É praticante do bem, das boas ações. Uma mulher sonhadora, pois sonhos é o que move quem luta por justiça, liberdade e pela vida  em sua plenitude. Uma pessoa vencedora.
Foi operária metalúrgica, trabalhou como auxiliar de almoxarifado, caixa, vendedora e professora do ensino fundamental. Militante desde os 15 anos. Ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores (PT) de Imperatriz e Região Tocantina. Foi secretaria Geral da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos em Imperatriz. Atuou nas lutas sociais, estudantis e comunitárias da região como ativista do Alicerce da Juventude Socialista. De Imperatriz a São Paulo, deixou sua marca audaz, iniciando sua atuação no movimento feminista através da organização das mulheres sindicalistas. De volta para Imperatriz em 1994, continuou sua luta. Criou o Comitê Permanente de Combate a Violência e a Negligencia Médica, que se fundiu com o Movimento  Fagulha e que se consolidou como o Centro de Promoção da Cidadania e Defesa dos Direitos Humanos Pe. Josimo. De 1998 a 2010 participou e presidiu o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher como representante da sociedade civil organizada. Como tal provocou e promoveu  audiências públicas sobre políticas, saúde  e segurança pública para a mulher, negociou a implantação e melhoria de várias políticas públicas para as mulheres e sociedade em geral. . Criou e desenvolveu o Projeto Retalhos de Esperança, atendendo mulheres vitimas de violência doméstica e sexual, em 2003. Fundou  em 2005 o Fórum de Mulheres de Imperatriz, articulação política de entidades sociais e sindicais para unificar as ações e lutas feministas e de mulheres. Militou pela  Criação da Lei Maria da Penha, coordenou ações de mobilização e articulação da implantação da Vara Especializada em violência domestica e familiar da mulher, que aconteceu ainda em agosto de 2007. Foi uma das  coordenadoras do 1º encontro Estadual das Mulheres Indígenas em 2009 e colaboradora do  2º Encontro Estadual das Mulheres Indígenas em 2014. Organizou e mobilizou as presas do Centro de Custodia de Preso de Justiça –CCPJ de Imperatriz em 2010, para denunciar as péssimas condições de encarceramento,  através de carta ao governo do estado e da divulgação na mídia local e nacional, com resultado positivo. Foi a principal articuladora da Campanha 16 dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra a Mulher de 2006 a 2014. Em 2016 organizou e promoveu pelo Centro de Direitos Humanos  Pe. 2ª  Oficina de Formação de Jovens feminista e  em parceria com  o Centro de Estudos , Educação Terra e Trabalho da  UFMA (Universidade Federal do Maranhão), realizou a 1ª  Jornada sobre Gênero da Região Tocantina.
Esta mulher com notória trajetória de vida é Conceição de  Maria Amorim. Graduada em Serviço Social. Especialista em Políticas Públicas, em Gênero e Raça e em Políticas Públicas de Saúde e da Família. Coordena o Centro de Promoção da Cidadania e Defesa dos Direitos Humanos Pe. Josimo, uma entidade sem fins lucrativos que atua na articulação política da sociedade civil em defesa da justiça e igualdade social. Membro da Rede Feminista Nacional de Saúde Sexual e Reprodutiva e do Movimento Nacional de Direitos Humanos. Coordena o Fórum de Mulheres de Imperatriz. Integrante do Fórum Maranhense de Mulheres e da Articulação de Mulheres Brasileiras. Além das ações coletivas, realiza atendimento e acompanhamento individual de mulheres em situação de violência doméstica e familiar em todo o estado do Maranhão e violação de direitos humanos. Conceição Amorim é reconhecida nacionalmente como uma das feministas mais atuantes do Estado  do Maranhão. Além do amor, afeição e fascínio pela militância que há muitos anos se dedica, esta rio-grandense de berço e imperatrizense por escolha sonha em ver as mulheres conscientes de sua força, seu potencial e seus direitos, transformando radicalmente esta sociedade desigual e opressora. Este é o seu projeto de vida mais desejado.
               
Marta Xavier

Ex estudante de Jornalismo da UFMA (Universidade Federal do Maranhão) e quase psicóloga pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).